A respiração implica em sensações olfativas involuntárias. Assim, ao respirarmos, necessariamente sentimos cheiros que podem remeter ao passado, ao que desejamos no futuro ou simplesmente, cheiros inéditos, que marcam tão somente o momento presente. A recordação tem um valor intenso para o homem até mesmo para sua constituição enquanto indivíduo e membro de um grupo. O homem guarda em si a necessidade constante da reconstituição de seu passado.
O insuportável mau cheiro da memória. Eis do que sofrem as duas pacientes que inspiraram este livro. Se para alguns existem aqueles aromas fugazes, deliciosos, dos quais as pessoas tentam lembrar-se na tentativa de reproduzir o prazer que proporcionam, para outros, há apenas o insuportável mau cheiro da memória, do qual tentam livrar-se, para libertarem-se do desprazer e da dor por ele despertados.
Da. Bernarda sente aquele cheiro de borracha queimada, que lembra o pneu da Kombi derrapada, causa do acidente que matou sua filha. Toda noite, à meia-noite, aquele mau cheiro insuportável de uma memória tão dolorida e sofrida a desperta de seu sono. Mau cheiro que traz à consciência a lembrança intacta do evento mais devastador de sua vida. E Leila, que passa mal com o cheiro de um produto de limpeza, que faz lembrar o formicida com o qual sua mãe se matou. Em relato diz: “aquele cheiro, Dra., não sai do meu nariz, fica aqui parado e eu sinto dores pelo
corpo todo”. Tudo o que estas pessoas buscam é livrar-se do fedor, da dor, do sofrimento e do passado. Na busca de um tempo perdido, perdem o tempo presente. Perdem a possibilidade de experimentar outros sentimentos e aromas, a eles associados, que ficam abafados tão somente pela dor e seu fedor.
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